Dessa vez eu já consegui 90 graus. Que avanço!
Flexão. Tenho pensado muito nessa idéia, embora reduzi-la agora a esta palavra tenha parecido muito estranho. Qual é o valor da flexibilidade...
Motoramente, enorme. Seres humanos, assim como outros animais vertebrados, movimentam seus membros a partir de complexas estrutras articuladas. Essas estruturas articuladas desenvolvem flexões, isto é, elas se flexionam em diferentes graus. A recuperação do arco de flexibilidade parece ser uma tarefa um pouco lenta mesmo. O interessante dessa velocidade anti-pós-moderna é, ao mesmo tempo, seu problema. À medida que se anda mais devagar, os passos tendem a ser um pouco mais firmes. Mas como mensurar essa firmeza... Como saber se estamos caminhando, firmemente, para o lado certo...
Ser uma pessoa flexível é muito fácil para alguns, enquanto que para outros é muito difícil. Falando de identidade na mesa do bar, sabe-se que hoje o ser humano está ávido por ter uma identidade e empenha-se fortemente em defendê-la. Ora, mas se as identidades estão à venda num grande super-mercado social, qual é o valor de se ter e de se defender uma identidade.
Afinal de contas, o que é valor....
Costumava-se associar a palavra valor a comportamentos éticos. Uma pessoa, então, seria de valor caso cumprisse com algumas atitudes esperadas pela comunidade, pela sociedade, etc. Essa comunidade, e também as sociedades, previam certos comportamentos diante de certas situações. Ora, é claro que isso também era um gerador de conflito, afinal, quem determinava esses comportamentos... em que medida eles poderiam ser alterados....
Hoje assisti a um filme de 1960. "Sangue na neve". O nome parecia ser de suspense, ou serial killer, mas não era nada disso. Posso dizer que era praticamente antropológico. Contava a história de um esquimó, Inuk, se não me engano. Inuk vivia feliz e contente entre seus companheiros esquimós. Quando o caçador seu competidor leva a mulher que ele tinha escolhido para ser sua esposa, Inuk sai numa odisséia que me pareceu quase suicida, mas nada demais para um esquimó.
Que estranhos sempre me pareceram os esquimós. Vivendo num lugar onde não era para ser habitado por humanos, morando em casas de gelo, comendo carne crua. Hoje eles me pareceram um pouco diferentes, muito influenciada pela bela atuação de Anthony Quinn na flor da idade e do físico.
Quando encontra seu opositor, Inuk negocia a troca de esposas. Ele tinha levado a outra moça e a mãe para trocar. Inuk não parecia muito decidido. Haviam lhe dito que ser decidido era importante, porque um homem precisava de uma esposa.
Segundo minha observação, a esposa do esquimó, entre outras funções de caça, é uma companheira que esquenta os pés do seu caçador na sua própria pele. Você consegue imaginar o frio que é isso... Depois de uma certa confusão, Inuk resolve ficar com a que havia lhe acompanhado por 4 mudanças de sol (imagino que sejam 4 dias) na neve tremenda. Eles ficam felizes, até que, quando estão caçando um urso polar, um outro esquimó mata o urso com uma espingarda.
Os esquimós não conheciam espingarda. Descobrem, após uma breve exposição, que podem trocar peles de raposas por uma arma no posto de comércio dos homens brancos. E assim vai.
A esposa de Inuk, que se refere a si mesma como mulher tola mas é na verdade, muito inteligente, percebe que os homens brancos são ou muito burros ou malucos. E alerta: se forem malucos, é melhor irmos embora, porque a maluquice está pegando.
Inuk vai embora atrás de sua mulher, mas quer voltar pra comprar as balas da espingarda. Nesse meio tempo, num incidente, acaba matando um padre que tinha ido pregar a palavra do Senhor para os esquimós. Eles não entendem quem é o Senhor, e se ofendem porque o padre não come a carne velha com larvas ( a iguaria esquimó) e rejeita "rir" com a esposa de Inuk. (rir, em esquimó, é sexo. A esposa é emprestada como uma forma de cordialidade ao visitante).
Inuk não conhece a lei dos brancos. Inuk é preso por dois homens brancos, mas mesmo assim salva a vida de um deles no deserto branco de neve. Inuk chega ao fim do filme e pergunta a sua mulher "o que nós fizemos pra eles"...
Inuk, embora ofereça sua mulher a um estranho, embora coma carne com larvas, embora todas as coisas estranhas ao olhar pouco antropológico, é um sujeito de valor. Ele respeita as leis que sua comunidade criou, e não compreende o formalismo burocrático do homem branco.
Inuk não foi flexível. Isso provavelmente nem existe em seu vocabulário. Inuk, como os esquimós e grande parte da humanidade, hoje não existe enquanto forma de manifestação. Ser flexível é a ordem do dia, mas não tanto aquela que permite às articulações do corpo seu movimento. É uma flexibilidade de pensamento, uma forma de ser mutável, de não ter compromisso.
O mundo de Inuk em nada se parece ao meu, ou a do meu alter-ego interpretado pelo Sean Penn. Enquanto tento me agarrar em algum pensamento rígido que me diga como viver, eu não sei simplesmente o que sentir.
sábado, 21 de junho de 2008
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