Disseram-me que eu poderia escrever um blog e não ter preocupação com o efeito disso. Blog é assim, né... Não necessariamente alguém lê. Ou ninguém lê, nem quem escreve.
Escrever é registrar, claro, mas é também desabafar angústias, torná-las exteriores ao pensamento de uma pessoa. Verborrágicos são mais felizes escrevendo. Ver os pensamentos virando caracteres dá uma responsabilidade interessante.
Urbanóicos somos nós, os paranóicos da cidade. Metrópoles, cidades grandes, médias, pequenas... A cidade é uma construção paranóica. É a convivência coletiva quer queira ou não. Cidades pós-modernas estão cheias de paranóias. E eu não estou falando só da violência, do medo como entidades extra-humanas. Os jornais e a "opinião pública" (o que é mesmo isso...) falam da violência, por exemplo, como se fosse algo exterior ao homem, como se não fosse uma criação humana, como se fosse algo que acontece simplesmente, como se nós não fôssemos, no mais íntimo das nossas ações, violentos.
Mas eu também não vim aqui pra falar da violência e engrossar o coro do medo. Vim falar das pessoas urbanóicas, gente que eu vejo na rua e fico imaginando quem são, onde moram, do que gostam, o que pensam. Reservo-me escrotamente o direito de atribuir-lhes pensamentos, já que eu não posso perguntar-lhes o que pensam sobre a globalização, por exemplo. Outra palavra que se tornou chula, essa tal globalização.
Não me veio agora nada de interessante pra dizer. Talvez nada disso mesmo seja interessante. Mas como estou falando com você, o ninguém, posso ficar à vontade. O blog de um amigo falou outro dia da pastelaria chinesa. Como os chineses chegam ao Rio de Janeiro e outras cidades ocidentais, essa é minha pergunta. Aqui há pastelarias, mas em outras cidades, o ramo "preferido" dos chineses são os mini-mercados. Como deve ser para os chineses viver num lugar em que não entendem os letreiros... Fácil pensar que é como o contrário, ora, imaginar-se vivendo na China. Mas nós sabemos que os chineses que migram em grandes levas parao Brasil - assim como outros países - vêm em busca de uma nova vida fora da China.
Nós sabemos que os chineses costumam viver entre si, desenvolvendo escassos laços com nós, ocidentais. São treinados para perguntar queijo ou carne e cobrar o módico valor do pastel com refresco açucarado. Mas, o que mais nós sabemos deles... Onde moram os chineses das pastelarias...
Eu tive uns vizinhos chineses. Tinha medo deles. Nada especificamente contra a China, eu só me angustiava de pegar o elevador com eles durante 12 andares sem entender o que eles diziam. E se estivesse falando de mim... Eles tinham um negócio caseiro de pirataria de cd. Acho que ajudava na renda, já que o responsável pela clonagem dos disquinhos era um rapaz de seus 20 anos na época que tinha uma deficiência física, pernas muito fininhas e frágeis que o impossibilitavam de andar. Vivia na cama ou sentado numa cadeira, no PC o dia inteiro produzindo o complemento da renda.
Complemento da renda foi idéia minha. Eu não soube nunca muito dos chineses-vizinhos. Tudo o que soube foi informado pela minha mãe, que um dia entrou no apartamento deles para resolver um problema de infiltração que vinha da nossa casa. Não conhecemos nossos vizinhos. Que óbvio é dizer isso. Mas como a gente se esquece de que essa obviedade nos transforma em monstros sorridentes. Temos medo dos vizinhos, não os queremos em nossas vidas, não falamos nada além de bom dia ou boa noite no elevador.
E os chineses, figuras tão curiosas no cenário urbano, são tão distantes. Nós comemos o pastel chinês com refresco de maracujá e nos contentamos com isso. Ficamos satisfeitos com carboidrato e açúcar por menos que uma passagem de ônibus, mas ficamos incomodados quando ouvimos que "os produtos brasileiros são menos competitivos que os da China no mercado internacional de exportação".
Talvez porque não sabemos como os chineses trabalham, não sabemos nada deles. Não sabemos nem o que eles sabem da gente. Os chineses estão na paisagem, como se não fossem humanos. Aliás, não só nos chineses, mas todos aqueles que são os "outros", isto é, aqueles que não são iguais a nós.
Mas aí vem outra pergunta. Nós, quem somos nós mesmo...

5 comentários:
testando
Minha vizinha, me disseram, tem uma quinta em Portugal.
Desde que soube disso nunca mais dormi direito.
Penso na quinta, sonho com a quinta.
Se ela é minha vizinha aqui, porque não é na quinta ?
Afinal, o que é uma quinta ?
Caro Anônimo, não entendi lhufas do que você escreveu. Mas espero que você durma melhor.
Well well well, Agora você não pode mais escrever para o "ninguém" já que divulguei o seu blog pra geral,inclusive para um certo vizinho da sua mãe que não vai ficar nada satisfeito em ver o que andam falando dele!
Fora esses comentários inúteis, que são a minha especialidade (acho que vou ser crítica de cinema)(nossa, fiz uma crítica aos críticos...isso sim é inteligente!) aprecio muito as suas idéias assim como a forma como você se expressa! Você é uma escritora nata e fica escondendo isso do mundo, sua covarde egoísta! Escreve logo uns livros pra ganhar uma bufunfa!!
Continue com esse blog, escrevendo sempre e sempre estarei aqui para ler e fazer comentários super pertinentes!
bjs da monstra sorridente
Escrever um blog pra ninguém, fazer um texto falando da importância do outro... Seu texto é metafórico, mas controverso. Será que precisamos conhecer o mundo todo, inclusive aqueles que apenas passam, ou precisamos conhecer a nós mesmos e nos distanciar um pouco do charme deprê de ser flaneur??
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